Deprimido: Você não está só!

A árdua luta contra uma visão negativa de si, dos outros e do mundo

O sol brilha pela janela, e o dia está lindo neste pequeno pedaço de mundo do litoral Algarvio. Mas minha mente inquieta decidiu que deveria escrever sobre seu lado mais escuro, doloroso. Assim, usando meus melhores recursos intelectuais passei a juntar ideias e palavras que ela me induzia, não para alimentar dor, mas para tentar mostrar como a dor é também uma arma genética da busca da pessoa melhor. 

 

Lá pelos meus vinte e poucos anos conheci os livros de Henry Miller, e a pouco tempo atrás reencontrei Nexus: A crucificação encanada. (Companhia Editora Americana. 1971 4a Edição). Miller foi um existencialista de sucesso nos anos sessenta. Por algum motivo comecei a reler Nexus e logo percebi a mensagem que o meu não consciente estava mandando. Logo vi como suas ideias haviam repercutido na minha mente ao longo da vida, mesmo virando memórias esquecidas. Como elas modelaram minha maneira de ver a mim mesmo, aos outros e à vida. Percebi como havia sido influenciado por vários outros pensadores com nítido gosto pelo lado duro e negativo pela vida, e o quanto me ajudaram a desenvolver uma espécie de existencialismo positivo: uma tendência para privilegiar a visão objetiva, crua e pouco romântica da realidade e a partir dela lutar por uma consciência mais apta para lutar contra as partes da decadentes da sociedade. Não é em vão a minha aproximação com temas como a evolução da espécie humana, o reconhecimento do nosso lado animal, a evolução de um tortuoso cérebro. O sentimento negativo, mesmo que doloroso, é uma benesse genética.

 

 

“O milagre é o homem ter sustentado a ilusão da liberdade.” (45)

 

“Temer é não semear, por causa dos pássaros”

Provérbio oriental (pg.36)

 

Um dia julguei poder saber todas as respostas para melhor trilhar meus caminhos, e agora vejo que quanto mais sei onde estou, maior fica o mapa da vida. JF.

 

Não creio que sejamos naturalmente masoquistas, mas creio que possamos ser treinados para ser. JF

 

Não basta ter fé em Deus, é preciso ter fé na vida. Como diz Miller sobre Dostoievski.” o homem nunca aceitará a vida cegamente até ser ameaçado de extinção.” (44)

 

 

Nossa maneira de ser vem de nossa constituição genética e da maneira como essa é modelada pela vida social. Eu tive certa tendência depressiva e negativa se sentir a vida, mas sempre alimentada por uma grande força vital, o que me fez um ativo combatente das minhas dores emocionais. Uma espécie de luta permanente para superar as vicissitudes criadas pela mente. O grande risco deste tipo de funcionamento mental é que ele domina o eu consciente, as decisões, e você vira uma espécie de máquina de respostas prontas fazendo bobagem que preferiria evitar. Esperto como é, o cérebro Nos ensina a reagir de forma politicamente correta e com algum sucesso na vida social: fazer-se alegre, ser hipócrita, mentir, etc. Como bom humano, para sobreviver ao mundo social, temos que ser formados em artes cínicas.

 

Quando depois dos cinquenta passei a tomar um agente químico regulador de humor, passei a ter mais momentos de mais estabilidade emocional e perceber melhor minhas próprias dualidades, melhor refletir sobre meus momentos depressivos e de alta irritabilidade. É muito difícil dominar a mente quando ela está subjugada por fortes emoções que nos empurram para baixo, como se alguém estivesse lhe colocando a força numa caixa e tentando fecha-la quando você está esperneando para sair dela.

 

O segredo da vida é conseguir momentos de “serenidade” para se avaliar o que realmente está acontecendo. Desde então passei por um longo período com reações mentais bem ponderadas, sem grandes emoções, seja para o prazer ou para a dor.

Recentemente decidi me submeter a uma experiência. Deixei de tomar o remédio e agora consciente das ameaças passei a me confrontar com os impulsos automáticos negativos da mente, esforçando-me para não deixar-me levar (totalmente) pelo estado mental por ele criado. Que luta! Percebo o quanto fico suscetível aos menores estímulos da realidade externa e interna as quais me colocam num estado de negatividade e sofrimentos. Entretanto, já com uma consciência mais fortalecida, percebo a batalha sendo travada. A ausência da química da droga favorece disparos neurais que levam a uma mente negativa. Um mal estar baseado numa reação química que eu acredito que pode ser dominada. Uma certa convicção me diz que devo continuar lutando e tentando dominar a química mental através do autocontrole dos meus pensamentos. Ainda não sei como terminará esta batalha. A guerra, por certo, vencerei um dia.

 

Parte da preparação para a batalha está no melhor conhecimento de si mesmo. Perceber a constituição das nossas verdades pessoais que geram exigências e necessidades as quais orientam nossa vida é que foiabsorvida ao longo do trajeto.

 

Relendo Nexus tantos anos depois, me vejo frente a minha imagem refletida no espelho; sei que não sou eu, mas é muito parecida. O mesmo faz Miller com Dostoievski quando cita sua relação complexa com o mal, vendo-o como uma experiência espiritual para o homem evoluir. E é exatamente isso o que sinto. Não se trata de cultivar a dor pela dor, mas pela libertação do que de melhor podemos fazer. É como uma missão instintiva de busca do engrandecimento humano através do domínio do potencial negativo humano e da sua importância para o desenvolvimento do potencial positivo. Diz ele, ao longo da estória:

 

“Enquanto prossegue na sua caminhada o homem pode ser enriquecido pela experiência do mal, mas é necessário compreender isto da maneira exata. Não é o mal em si mesmo, que enriquece o homem; o homem é enriquecido por aquela força espiritual que se ergue dentro dele, para domínio do mal. O homem que diz “renunciarei ao mal em favor do enriquecimento”, nunca enriquece; perece. Mas é o mal que põe a liberdade do homem em prova…” (pg. 26)

 

“Uma única vida é demasiado curta para a gente resolver os problemas pessoais.” (pg.35) “

Eis o que somos a maioria de nós: escravos de nós mesmos. … Observando a vida com toda atenção, ela não passa de uma farsa.” (pg 37)

 

“Se continuar na mesma rotina por muito tempo, jamais terá a coragem de romper a barreira.” (41)

 

“O objetivo da vida na terra é descobrir o verdadeiro ser individual – e viver para ele!” (42)

 

… a conquista do mundo significa “adquirir-se nova consciência, uma nova visão das coisas.” (47)

 

Paixão, a perda da loucura. (54)

 

Na maior parte da vida os humanos passam lutando contra suas necessidades baixas, as mais primitivas, e como diz Miller, os verdadeiros problemas na vida só começam quando a gente resolve as inquietações do sexo e todas as dificuldades materiais. (pg.35). Nesta primeira fase a luta pela sobrevivência é literal. Somente quando superamos as necessidades baixas e médias de fome, descanso, sexo, aceitação, amor, reconhecimento, é que conseguimos nos libertar da mente primitiva e a partir de então podermos lidar com os verdadeiros problemas humanos que afligem a vida social contemporânea. O problema para ultrapassar a barreira da luz e nos lançarmos ao espaço social sideral dos novos tempos é que continuamos egoístas e autocentrado, dogmáticos e donos das verdades, e, acomodados às nossas satisfações imediatas.

 

Jorge Fornari é membro do Grupo ENGAGE e mestre em administração pela EAESP-FGV, com pós graduação em administração de empresas e graduação em administração pública pela mesma instituição. Foi professor na FGV e no mestrado da ESPM/SP, BSP e BBS, nas disciplinas de comportamento e cultura organizacional, modelos de gestão, gestão de mudanças e formação e desenvolvimento de gestores. Escritor, consultor e coach, foi gestor e executivo de RH nas empresas Telesp, CESP, J&J, Amex, ATL/Claro, BrasilTelecom, RedeTV! e HROil. É autor de O Executivo na Essência (Évora,2016) e A Terceira Competência (Qualitymark,2004).

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