Ética, compliance e a desumanização das corporações atuais

Tendo passado por várias empresas, nos mais variados segmentos e atualmente passando por um período sabático, me encontro estimulado a rever minha trajetória profissional e escrever sobre diferentes aspectos do mundo corporativo e como ele se comporta em situações anormais.

Ética, por exemplo, é o conjunto de comportamentos que cada um deveria obedecer, no entanto sujeito a diferentes interpretações culturais.

Dada essa variação de interpretações, corporações, especialmente ao expandir-se globalmente, passam pela difícil tarefa de desenvolver regras e procedimentos de compliance como medidas de contenção de tais interpretações e desvios do que a matriz considera ser ou não ético. Quanto maior a abrangência geográfica, mais difícil a tarefa.

O que tenho visto durante minha vida profissional em várias posições culturalmente abrangentes é que quanto mais as companhias tentam avaliar e desenvolver as mais variadas interpretações e situações, mais os funcionários, especialmente os cargos mais altos, tentam encontrar brechas e abusar, mais frequentemente em benefício próprio com a justificativa da Companhia estar se beneficiando de tais ações.

Como executivo financeiro e de governança, muitas vezes, mais do que gostaria, tenho enfrentado tais situações e explicado corretamente as regras e em que elas se basearam, infelizmente, dada as posições dos envolvidos, com consequências negativas em termos de credibilidade ao negócio e ao país envolvido.

O que pouco se considera é que quanto melhor a companhia opera, maiores benefícios serão colhidos em médio e longo prazo, melhor preparada a empresa estará para períodos de incerteza, os funcionários estarão mais adequados a avanços na carreira, níveis de empatia crescem assim como o ambiente amigável e cooperativo.

Ao interromper o processo por aqueles que torcem as regras, mal-interpretam os processos de governança e agem em benefício próprio buscando retorno financeiro disfarçado de receita para a empresa (nunca lucro) ou estabilidade profissional. A matriz, no entanto, não fica impune pois o fator comum em todas as ocorrências é a pressão.

Pressão vinda dos acionistas em busca de lucros insustentáveis prometidos pelo comitê. Pressão do comitê em busca de receita e lucratividade que os executivos nunca concordaram serem possíveis de alcançar. Pressão da diretoria impondo objetivos e orçamentos que os gerentes sabem que são impossíveis. E tudo continua num ciclo vicioso onde regras são contornadas, o desemprego é temido e as emoções asfixiadas. A desumanização torna-se a nova regra. Funcionários tornam-se meros números e qualquer sinal de resposta emocional é banida pela chance de não ser conforme. Costumes e comportamentos locais são abolidos por imposição da matriz, que ao final, após vários anos de tal ciclo, não sabe mais o que fazer quando algo foge à regra e mais frequentemente que se imagina, simplesmente evitará o confronto e fará vista grossa…

É hora de mudarmos isso, não? Hora de tomarmos uma posição e olharmos além do alcance de nossas mãos, pensarmos nas consequências a longo prazo e na consciência de cada um sobre o que está sendo feito e prometido. Hora de pensarmos!

 

Guilherme Fernandes é membro do Grupo ENGAGE e executivo de finanças com passagens por indústrias Automobilística, Química, Farmacêutica e tecnologia, apaixonado por excelência operacional obtida através do treinamento e engajamento de equipes, controle de custos e redução de desperdícios. Mais de 20 anos de experiência nas áreas de engenharia, marketing, projetos, auditoria e finanças.

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