Leitura estratégica de mercado e a próxima onda de investimentos

Como sobrevoar a dinâmica do mercado atual e enxergar lá na frente? O que encontraremos após a próxima curva?

A economia é cíclica de tal forma, que as expectativas de grandes depressões nem sempre se confirmam, tampouco são irreais expectativas de exagerados ciclos expansionistas. Faz parte da maneira como as pessoas supervalorizam determinados acontecimentos, muitas vezes entendendo que eles terão para sempre aquele comportamento inicial.

Na última década, vivemos dois acontecimentos que exemplificam a afirmação do último parágrafo: do lado estritamente expansionista, a descoberta do pré-sal levou o Governo Federal e a população a acreditarem que o Brasil teria, num curto período de tempo, os benefícios que países já apoiados pelo ciclo duradouro do petróleo têm há muito tempo. Seríamos os novos Emirados Árabes Unidos, se confirmada tamanha expectativa. Claro que, passada a euforia, a realidade se ameniza e se mostra mais comedida, com uma realidade distante daquela expectativa inicial.

Do lado oposto, quando avaliamos a expectativa versus realidade sobre outro ângulo, tivemos recentemente os reflexos da crise americana das hipotecas sobre a bolsa de valores brasileira, levando a seguidos “circuit-breakers” em 2009 e a clara sensação de que as nossas empresas, por mais que tivessem fundamentos econômicos sólidos, estariam fadadas a se tornarem “penny stock”, isto é, ações puramente especulativas, sob a ameaça de que o mercado de capitais brasileiro ficaria absolutamente inviável. Claro que a realidade, ainda no ano seguinte, em 2010, mostrou-se mais amena que a expectativa e a bolsa de valores brasileira se recuperou de forma impressionante.

Os ciclos econômicos também se mostram evidentes quando analisamos o nosso cotidiano e as “modinhas de negócios” que se estabelecem como ondas, para então, a seguir, sucumbirem perante a realidade do dia-a-dia. Aqui também a relação de expectativa-realidade e a forma um tanto irracional que alguns mercados reagem a estas “modinhas” são claramente visíveis em nossas cidades. Exemplos da última década e atuais não faltam: desde os inúmeros empreendedores que abriram negócios apostando em “frozen-yogurts”, as paletas mexicanas e as atuais barbearias retrô. O que se costuma ver, após esta expectativa superlativa, são lojas fechando e a acomodação natural do mercado, absorvendo as iniciativas num patamar mais moderado. Novamente a Curva de Gartner se mostra verdadeira.

Outras modas são visíveis em nossa economia atualmente. Os anos de 2015 e 2016, em virtude da forte crise econômica que se abate sobre o Brasil, propiciou a formação de outras atividades econômicas com excessiva força e que, se analisadas sob o foco dos ciclos econômicos, tornam-se empreendimentos muitas vezes fundados em decorrência da aposta de transformação de mercados, mas que podem ter o mesmo fim das tendências de curto prazo ora citadas. Atualmente o Brasil vive a revolução das Fintechs, empreendimentos em larga escala que utilizam fundamentos de tecnologia para proporcionar um serviço alternativo e, teoricamente melhor, que as instituições tradicionais oferecem – especialmente no ramo financeiro.

O advento das Fintechs faz lembrar o ano de 1.999, quando a internet mundial passava pelo boom das empresas “pontocom”. Diversos comércios eletrônicos se formaram na época, parecia que os consumidores não mais comprariam em varejo físico – estava decretada a morte dos shoppings centers e das ruas de comércio. Mais uma vez, a economia ensinava a diferença entre expectativa e realidade e, com os passar dos anos, ficaram alguns poucos e representativos negócios online, mas a vida seguiu normalmente. É claro que o e-commerce cresceu muito e se tornou um dos principais canais de venda do varejo brasileiro, mas as vendas tradicionais continuaram, não houve a troca de canais, apenas a disponibilização de mais um meio para se chegar ao consumidor.

A economia cíclica se faz presente em outras nuances. Os avanços tecnológicos e as revoluções nos processos não ocorrem de maneira uniforme nos diversos segmentos da economia. Ainda que a tecnologia possa estar disponível em larga escala, a sua adoção depende de usos e costumes e, neste contexto, os avanços se mostram mais evidentes em segmentos que já são habitualmente os desbravadores de tecnologia e sua aplicação.

Por trás das imperfeições do mercado, oportunidades se abrem naturalmente, mesmo que isso tome algum tempo até que um determinado mercado mais “atrasado” encontre espaço para adotar uma nova tecnologia ou processo. A economia, portanto, tem características cíclicas e se desenvolve por meio de ondas de investimentos, por tecnologia e por segmentos.

Entender quais os segmentos de mercado mais atrasados e onde a estratégia de utilização dos benefícios dos portais de serviços e negócios poderiam trazer maiores ganhos, passou a ser o desafio para quem não aproveitou o investimento nos segmentos pioneiros, para quem chegou atrasado ou não obteve o retorno financeiro esperado. Aproveitar-se da heterogeneidade da curva de adoção da tecnologia poderá migrar os investimentos em Fintechs na direção de outros mercados mais atrasados, entre eles a manufatura e a hotelaria.

E para quem não acredita no retorno financeiro dos investimentos em plataformas de decisão, aplicativos e Fintechs, há sempre a clássica opção: pode o mundo se transformar milhões de vezes e todas as tecnologias evoluírem exponencialmente, mas sempre teremos que nos alimentar e cuidar de nossa saúde. Investimentos bem planejados em alimentação e saúde sempre encontrarão seu mercado.

 

Tiago Zequi de Oliveira é membro do Grupo ENGAGE, Mestrando em administração de empresas pela EAESP/FGV e Advisor de negócios nas áreas de Dados e Analytics. Tem 22 anos de experiência em empresas nacionais e multinacionais: Cetip (B3), Serasa Experian, Itaú-Unibanco e IBM, em áreas relacionadas a negócios e estratégia. Participou de dezenas de projetos estratégicos entre eles, a cisão da Credicard, criação de bureau de dados em parceria com empresas americanas, distribuição de serviços globais de dados e fusão e aquisição no segmento.

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